Gestão de múltiplos regimes durante a transição tributária: como organizar o controle fiscal da empresa

Atualizado em | 9 min de leitura

Gerir múltiplos regimes na transição tributária exige integração entre Vendas, Financeiro e Fiscal, focando em cadastros precisos e no uso estratégico do ERP para aplicar corretamente regras fiscais antigas e as novas de IBS/CBS.
O controle operacional e a tecnologia são essenciais para evitar erros, proteger o caixa e garantir o aproveitamento dos créditos fiscais até a plena vigência do novo sistema em 2033.

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A Reforma Tributária brasileira não promove uma troca simples de impostos. Ela cria um período prolongado de convivência entre regimes, no qual as empresas precisarão lidar, ao mesmo tempo, com regras antigas e novas. 

Para o Empreendedor e para quem cuida da Gestão no dia a dia, isso significa um desafio prático: controlar tributos diferentes, com lógicas diferentes, sem perder o controle fiscal, o crédito e o caixa.

Durante a transição, a empresa não “vira a chave” de um dia para o outro. Ela passa a operar em um ambiente híbrido, no qual ICMS, ISS, PIS e Cofins continuam existindo enquanto IBS e CBS entram gradualmente em cena. Esse cenário exige organização, método, bom uso do ERP e disciplina operacional.

Este artigo mostra, de forma prática, como estruturar o controle fiscal para gerir múltiplos regimes tributários durante a transição, sem travar a operação e sem transformar o fiscal em um problema diário.

O que significa gerir múltiplos regimes durante a transição tributária?

Gerir múltiplos regimes significa que, por vários anos, a empresa terá que apurar, recolher, controlar créditos e cumprir obrigações relacionadas a tributos diferentes, com regras que não se substituem imediatamente.

Na prática, isso quer dizer que:

  • Parte das operações continuará sujeita ao modelo atual.
  • Outra parte começará a seguir as regras do novo modelo.
  • Os sistemas, cadastros e controles precisam identificar qual regime se aplica a cada operação.

O maior risco não é pagar imposto. É pagar errado, pagar duas vezes, perder crédito ou gerar inconsistências que se acumulam ao longo do tempo.

Confira mais detalhes: A Reforma Tributária vai aumentar as obrigações fiscais? 

Quais tributos convivem com IBS e CBS ao longo da transição?

Durante o período de transição da Reforma Tributária, a empresa precisará conviver com:

  • ICMS, aplicado às operações com mercadorias.
  • ISS, incidente sobre serviços, conforme a legislação municipal.
  • PIS e Cofins, no modelo atual de apuração.
  • CBS, que gradualmente substituirá PIS e Cofins.
  • IBS, que substituirá ICMS e ISS ao longo do tempo.

Isso cria um cenário em que uma mesma empresa, no mesmo mês, pode:

  • Emitir notas com ICMS e ISS.
  • Emitir notas já com CBS destacada.
  • Apurar créditos em bases diferentes.
  • Recolher tributos a entes distintos.

Sem controle, esse ambiente híbrido vira confusão operacional.

Saiba também: Como diferenciar e calcular ICMS e IBS durante a transição da Reforma Tributária 

Por que essa convivência aumenta a complexidade para pequenas empresas?

Pequenas e médias empresas sentem esse impacto de forma mais intensa por três motivos:

  1. Times enxutos, com acúmulo de funções.
  2. Dependência operacional do ERP, sem controles paralelos sofisticados.
  3. Menor margem para erro de caixa, já que qualquer pagamento indevido pesa mais.

Além disso, muitas PMEs ainda operam com cadastros simplificados, parametrizações “no limite” e forte dependência do contador para decisões do dia a dia. Na transição, esse modelo deixa de funcionar.

Se aprofunde no tema: Como microempresas podem organizar o financeiro antes da Reforma Tributária? 

Como mapear quais regimes atingem a sua empresa na prática?

Antes de ajustar sistemas ou criar controles, a empresa precisa entender onde está exposta. Isso não exige conhecimento jurídico profundo, mas exige clareza operacional.

Quais perguntas o empresário deve responder para saber em quais regimes está enquadrado?

Use este roteiro prático de perguntas:

Sobre o porte da empresa

  • A empresa é MEI, Simples Nacional, Lucro Presumido ou Lucro Real?
  • Existe previsão de mudança de porte durante a transição?

Sobre a atividade

  • Vende mercadorias, presta serviços ou ambos?
  • Possui produtos ou serviços recorrentes?
  • Trabalha com operações mistas (produto + serviço)?

Sobre a localização

  • Opera em um único estado ou em vários?
  • Presta serviços em municípios diferentes?
  • Possui filiais ou centros de distribuição?

Sobre o tipo de cliente

  • Vende para pessoa física, jurídica ou ambos?
  • Atende clientes contribuintes e não contribuintes?
  • Atende órgãos públicos?

Sobre os canais de venda

  • Venda direta?
  • E-commerce próprio?
  • Marketplaces?
  • Contratos recorrentes?

Cada resposta ajuda a identificar quais tributos e regimes impactam a empresa e em quais operações a complexidade será maior.

Leia também: Leis complementares na Reforma Tributária: é preciso acompanhar? 

Como classificar operações por regime tributário sem complicar a rotina?

O erro mais comum é tentar classificar tudo manualmente, nota a nota. O acerto é classificar operações, não pessoas.

Na prática:

  • Defina tipos de operação padrão (ex.: venda mercadoria interna, venda interestadual, serviço recorrente).
  • Associe cada tipo de operação a um regime tributário aplicável durante a transição.
  • Faça com que o ERP aplique a regra automaticamente com base nessa classificação.

Assim, o usuário do faturamento não “escolhe tributo”. Ele escolhe a operação correta, e o sistema faz o resto.

Veja também: Impactos da Reforma Tributária nos regimes especiais de tributação

Como organizar cadastros e lançamentos para não se perder entre regimes?

Durante a transição da Reforma Tributária, a empresa opera em um ambiente híbrido, com regimes antigos e novos convivendo por anos. Nesse cenário, a organização de cadastros e lançamentos deixa de ser um ajuste fiscal e passa a ser um pilar operacional.

Portanto, para organizar cadastros e lançamentos, é necessário:

  1. Separar cadastro operacional de regras tributárias;
  2. Padronizar campos críticos em todos os sistemas;
  3. Definir critérios objetivos para identificar o regime da operação;
  4. Parametrizar convivência entre regimes antigos e IBS/CBS;
  5. Garantir que o lançamento financeiro reflita a nota fiscal;
  6. Criar validações automáticas antes da emissão da nota;
  7. Documentar regras para orientar Vendas, Fiscal e Financeiro.

Entenda mais sobre a importância da tecnologia na Reforma com esse conteúdo da CertClick: Reforma Tributária e digitalização fiscal: por que a tecnologia será regra? 

Como separar regras do sistema antigo e do novo dentro do sistema de gestão? 

A melhor prática é criar uma separação lógica, não física.

Isso significa:

  • Manter um cadastro único de produtos e serviços.
  • Criar campos e indicadores que informem quais regimes se aplicam.
  • Parametrizar o ERP para aplicar regras conforme:
    • tipo de operação
    • período
    • regime vigente

Evite criar “produtos duplicados” só para diferenciar regime. Isso gera confusão, erro de estoque, erro de preço e retrabalho.

Confira também: Reforma tributária 2026: cronograma tributário e o que você precisa saber ainda este ano

Como evitar confundir créditos e débitos entre os diferentes regimes?

Aqui mora um dos maiores riscos financeiros da transição.

Boas práticas essenciais:

  • Nunca misturar créditos de regimes diferentes na mesma apuração.
  • Ter contas contábeis distintas para cada tributo/regime.
  • Conciliar mensalmente:
    • notas emitidas
    • notas recebidas
    • créditos apropriados
  • Usar relatórios separados no ERP para cada regime.

O erro de crédito não aparece imediatamente. Ele vira um problema meses depois, quando o caixa já foi afetado.

Entenda mais sobre o tema: Parametrizações fiscais importantes na Reforma Tributária

Como planejar o fluxo de caixa considerando múltiplos regimes?

A transição tributária não afeta apenas o fiscal. Ela impacta diretamente o fluxo de caixa.

Como prever o impacto de cada regime no caixa da empresa?

O primeiro passo é separar mentalmente (e no controle):

  • Tributos que saem imediatamente do caixa.
  • Tributos que geram crédito recuperável.
  • Tributos que podem gerar defasagem temporal entre pagamento e compensação.

Monte simulações simples:

  • Quanto pago hoje por ICMS, ISS, PIS e Cofins?
  • Quanto desse valor tende a migrar para IBS e CBS ao longo do tempo?
  • Em quais operações o crédito será mais rápido ou mais lento?

Esse exercício ajuda a antecipar pressões no caixa.

Confira depois: O papel do ERP na Reforma Tributária: guia prático para atravessar a transição fiscal

Como preparar reservas financeiras para ajustes e eventuais autuações?

Durante a transição, ajustes serão inevitáveis.

Boas práticas:

  • Criar uma reserva específica para riscos tributários da transição.
  • Evitar usar créditos “no limite” sem validação.
  • Priorizar consistência e segurança, não agressividade fiscal.

Empresas que atravessam a transição sem reserva tendem a sofrer mais com ajustes retroativos.

Veja detalhes no blog da ClickNotas sobre: Como preparar o emissor de notas fiscais para a Reforma Tributária em 2026 

Conclusão: como manter o controle fiscal em dia durante toda a transição?

A transição da Reforma Tributária não será um evento pontual, nem um simples ajuste de alíquotas. Ela representa anos de convivência entre regimes diferentes, exigindo das empresas um nível de organização fiscal que, até então, muitas conseguiam postergar. 

A boa notícia é que o controle fiscal não depende de complexidade jurídica, mas de processo, disciplina e tecnologia bem aplicada.

Empresas que tratam a gestão de múltiplos regimes como um tema apenas contábil tendem a perder visibilidade, cometer erros recorrentes e sentir o impacto no fluxo de caixa

Já aquelas que assumem o controle do cadastro, classificam corretamente suas operações e utilizam o ERP como ferramenta estratégica conseguem atravessar a transição com previsibilidade e segurança.

Manter o controle fiscal em dia passa, essencialmente, por cinco pilares práticos:


Entender quais regimes afetam o negócio, separar operações por lógica tributária, evitar misturar créditos e débitos, planejar o caixa com visão realista e envolver o contador como validador, não como gargalo. Quando esses pilares estão bem definidos, a complexidade deixa de ser um risco e passa a ser administrável.

A Reforma Tributária não penaliza quem se organiza cedo. Pelo contrário: ela expõe fragilidades de processos improvisados e favorece empresas que investem em gestão, automação e padronização. Quem começa agora reduz retrabalho, evita pagamentos indevidos e ganha tempo para focar no crescimento do negócio.

Em um cenário de múltiplos regimes, controle é vantagem competitiva. E quanto antes a empresa estruturar seus processos, mais tranquila será a travessia até o novo modelo tributário estar plenamente consolidado.

Dúvidas sobre gestão de múltiplos regimes na transição

Por quanto tempo o sistema antigo vai conviver com IBS e CBS?

O sistema tributário atual vai conviver com IBS e CBS de 2026 a 2032. Durante esse período, PIS, COFINS, ICMS e ISS continuam sendo aplicados ao mesmo tempo em que o novo IVA Dual é implantado de forma gradual.

A partir de 2033, o sistema antigo é extinto e passa a valer apenas o novo modelo.

Pequenas empresas também precisam se preocupar com múltiplos regimes?

Sim. Mesmo pequenas empresas podem operar com regras tributárias diferentes ao mesmo tempo, especialmente em vendas B2B, operações interestaduais ou fora do Simples, o que exige controle para evitar erros e tributos pagos indevidamente.

Como saber se a empresa está recolhendo tributos em duplicidade?

A empresa pode estar recolhendo tributos em duplicidade quando não separa corretamente os regimes aplicáveis a cada operação.
Os principais sinais são:

  • Pagamento de tributos do sistema antigo e do novo sobre a mesma operação
  • Divergência entre notas fiscais, apuração e contabilidade
  • Créditos não aproveitados ou lançados incorretamente

A verificação exige conferência por tipo de operação, regime e tributo, com registros separados para cada modelo.

Qual o papel do contador na organização dos regimes durante a transição?

O contador é responsável por interpretar a legislação, orientar o enquadramento correto e validar a apuração dos tributos, mas depende de informações organizadas e classificações corretas feitas pela empresa.

Sem processos e dados confiáveis, nem o melhor contador consegue evitar erros durante a transição.

Vale a pena investir em um ERP mesmo sendo micro ou pequena empresa?

Sim, vale muito!

A convivência entre o sistema antigo e IBS/CBS aumenta a complexidade das apurações e dos controles fiscais. Para micro e pequenas empresas, tentar gerenciar isso por planilhas ou controles manuais eleva muito o risco de erros, recolhimento em duplicidade e perda de créditos tributários.

Um ERP bem parametrizado ajuda a:

  • Classificar automaticamente cada operação pelo regime tributário correto
  • Separar regras do sistema antigo e do novo
  • Integrar emissão de notas, financeiro e contabilidade
  • Gerar informações confiáveis para o contador e para a gestão

Além disso, sistemas de emissão fiscal como a ClickNotas podem ajudar muito nesse processo, garantindo que a nota fiscal já nasça correta, com enquadramento tributário adequado, reduzindo falhas operacionais e retrabalho.

Na prática, o ERP e ferramentas fiscais deixam de ser um custo e passam a ser instrumentos de controle, segurança fiscal e previsibilidade financeira, mesmo para empresas de pequeno porte.

Sthephane Teodoro
Sthephane Teodoro é administradora e especialista em finanças corporativas. Transforma números em informação clara, orientando empreendedores que desejam estruturar seus negócios com segurança e melhores resultados.
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