Neutralidade fiscal e microempresas: os impostos vão subir?

Atualizado em | 10 min de leitura

A neutralidade fiscal da Reforma Tributária é macro e não garante que microempresas do Simples Nacional não sentirão aumento de custos no B2B, exigindo planejamento e tecnologia. A principal ameaça à neutralidade individual é a limitação de crédito gerada pelo Simples, que pressiona a competitividade e o fluxo de caixa durante a transição 2026-2033.

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A Reforma Tributária do consumo trouxe para o centro do debate um conceito que, à primeira vista, parece tranquilizador: neutralidade fiscal. A promessa oficial é de que a substituição de tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS pelo IVA Dual (IBS e CBS) não aumentará a carga tributária global do país.

Para as microempresas, especialmente as optantes pelo Simples Nacional, a dúvida é imediata e legítima: se a carga total não sobe, os impostos vão ou não aumentar na prática?

A resposta exige cuidado. Neutralidade fiscal não significa, necessariamente, que cada empresa pagará o mesmo que paga hoje. O novo sistema altera profundamente a forma de incidência, de creditamento e de arrecadação, criando ganhadores e perdedores, sobretudo no mercado B2B

Este artigo analisa, de forma realista, como a neutralidade fiscal impacta as microempresas, quais são os riscos e quais decisões estratégicas serão determinantes entre 2026 e 2033.

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A Reforma Tributária aumenta os impostos para microempresas?

A resposta curta é: a Reforma não prevê aumento da carga tributária global, mas isso não garante que todas as microempresas pagarão menos ou o mesmo que hoje.

A neutralidade fiscal foi incorporada à Constituição como um princípio estruturante do novo sistema. A lógica é que o IBS e a CBS sejam calibrados para substituir a arrecadação dos tributos atuais, mantendo a carga como proporção do PIB.

No entanto, essa neutralidade é macro. No plano individual, a Reforma altera a dinâmica competitiva, especialmente para quem vende para outras empresas.

Importante: neutralidade fiscal não é uma promessa de imposto menor, mas de redistribuição mais racional da carga, com menos distorções.

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O que é a neutralidade fiscal?

Neutralidade fiscal significa que o sistema tributário deve interferir o mínimo possível nas decisões econômicas, sem criar vantagens artificiais nem penalizar modelos de negócio específicos apenas pela forma como os tributos são cobrados.

No contexto da Reforma Tributária, a neutralidade está diretamente ligada a três pilares:

  • não cumulatividade plena (crédito financeiro amplo);
  • base de incidência ampla;
  • eliminação do efeito cascata.

Saiba mais detalhes: Reforma Tributária e a neutralidade fiscal: o que significa

Por que neutralidade fiscal não significa imposto menor para a sua empresa?

Um equívoco comum é associar neutralidade a redução automática de tributos. Na prática, a neutralidade busca:

  • eliminar distorções históricas;
  • reduzir cumulatividade;
  • tornar o sistema mais transparente.

Isso pode resultar em aumento de carga efetiva para algumas empresas e redução para outras, dependendo da posição na cadeia, do regime tributário e do perfil de clientes.

Confira também: A Reforma Tributária vai aumentar as obrigações fiscais? 

Neutralidade fiscal x realidade das microempresas

Embora a Reforma Tributária tenha sido desenhada sob o princípio da neutralidade fiscal, a realidade das microempresas revela limitações práticas que vão além do texto legal.

Estruturas operacionais mais enxutas, menor capacidade tecnológica e a dependência do mercado B2B fazem com que a neutralidade funcione de forma desigual na prática, especialmente para optantes do Simples Nacional. 

Assim, mesmo sem aumento formal de carga tributária, microempresas podem enfrentar perda de competitividade e pressão financeira durante a transição para o novo sistema.

Por que a neutralidade funciona no papel, mas falha no dia a dia?

No papel, o IVA Dual é neutro. Na prática, as microempresas operam em um ambiente assimétrico, com:

  • menor poder de barganha;
  • menor capacidade tecnológica;
  • dependência de grandes compradores.

Essas assimetrias fazem com que a neutralidade teórica não se traduza automaticamente em neutralidade prática, especialmente no mercado B2B.

Leia mais sobre em: Digitalização Fiscal na Reforma Tributária: a tecnologia como instrumento de conformidade 

A não cumulatividade plena compensa a nova alíquota?

A não cumulatividade plena é o coração do novo sistema. Ela permite que todo imposto pago ao longo da cadeia gere crédito, eliminando o efeito cascata.

O que muda entre crédito presumido e crédito financeiro amplo?

No sistema atual:

  • os créditos são limitados;
  • muitas despesas não geram crédito;
  • há cumulatividade disfarçada.

No novo sistema:

  • o crédito é financeiro;
  • praticamente todos os insumos e serviços vinculados à atividade geram crédito;
  • o tributo deixa de ser custo intermediário.

Por que a não cumulatividade favorece quem está fora do Simples?

Empresas fora do Simples:

  • recolhem IBS e CBS integralmente;
  • transferem crédito cheio ao cliente;
  • tornam-se mais atrativas no B2B.

Já as microempresas do Simples:

  • recolhem IBS/CBS de forma diluída no DAS;
  • geram crédito proporcionalmente menor;
  • podem ser preteridas por compradores que buscam maximizar créditos.

Se aprofunde no tema: Como a não cumulatividade plena vai funcionar no IBS e CBS

O efeito cascata ainda existe mesmo com a promessa de neutralidade?

A promessa central da Reforma Tributária é eliminar o efeito cascata por meio da não cumulatividade plena, permitindo o aproveitamento integral dos créditos de IBS e CBS ao longo da cadeia produtiva. Em termos estruturais, o novo modelo do IVA Dual foi desenhado justamente para impedir que o tributo incida sobre ele mesmo em etapas sucessivas. 

No entanto, embora o efeito cascata seja significativamente reduzido no plano normativo, ele pode continuar existindo na prática, especialmente para microempresas inseridas em determinadas configurações de mercado e regimes tributários.

O que é efeito cascata na prática?

O efeito cascata ocorre quando tributos pagos em uma etapa da cadeia não são integralmente recuperáveis pelo contribuinte seguinte, fazendo com que o imposto se acumule no preço final. 

No sistema atual, isso é comum em tributos cumulativos, como o ISS, e em regimes de não cumulatividade restrita, como o PIS e a Cofins. A Reforma busca eliminar esse problema ao permitir o crédito financeiro amplo, mas essa lógica depende de que todos os agentes da cadeia estejam plenamente inseridos no regime de débitos e créditos.

Veja também: O ISS será extinto na Reforma Tributária?

Por que microempresas sentem mais esse impacto?

Na prática, microempresas optantes pelo Simples Nacional continuam recolhendo tributos de forma unificada, o que limita a geração de créditos para seus clientes. 

Em operações B2B, isso faz com que parte do imposto pago pela microempresa não seja plenamente recuperável pelo adquirente, reintroduzindo, de forma indireta, um efeito semelhante ao cascata. 

Assim, embora o sistema seja neutro no desenho constitucional, a escolha pelo Simples pode gerar resíduos tributários econômicos, que afetam a competitividade da microempresa frente a fornecedores que operam fora desse regime.

Leia mais sobre em: Saiba qual a diferença entre cumulatividade e não cumulatividade plena na Reforma Tributária 

Por que o Simples Nacional ameaça a neutralidade no B2B?

Embora a Reforma Tributária tenha sido estruturada sob o princípio da neutralidade fiscal, o Simples Nacional cria uma assimetria relevante nas operações B2B ao limitar a transferência de créditos de IBS e CBS ao longo da cadeia. 

No novo sistema, empresas que operam no regime normal de débitos e créditos repassam crédito integral aos seus clientes, enquanto microempresas optantes pelo Simples recolhem os tributos de forma unificada no DAS, gerando apenas créditos proporcionais ao valor efetivamente recolhido. 

Essa diferença rompe a neutralidade econômica pretendida pelo IVA Dual, pois faz com que fornecedores do Simples se tornem menos atrativos para compradores empresariais que buscam maximizar a recuperação de créditos tributários.

Como o crédito não aproveitado vira perda de competitividade

Quando o comprador não consegue se creditar integralmente:

  • ele embute esse custo na decisão de compra;
  • fornecedores do Simples perdem competitividade;
  • o efeito não é tributário direto, mas comercial.

Exemplo prático: fornecedor do Simples x fornecedor fora do Simples

Dois fornecedores com o mesmo preço bruto:

  • o fornecedor fora do Simples gera crédito cheio;
  • o fornecedor do Simples gera crédito limitado;
  • o comprador escolhe quem reduz seu custo tributário.

Quando a “Opção Híbrida” é a saída para não perder clientes?

A opção híbrida, prevista na Lei Complementar nº 214/2025, permite que a microempresa:

  • permaneça no Simples;
  • recolha IBS e CBS fora do DAS;
  • gere crédito integral ao cliente.

Essa escolha pode ser decisiva para quem atua majoritariamente no B2B.

Confira também: Crédito Tributário: o que é, como recuperar valores e o que muda na Reforma [Guia 2025/2026] 

Os desafios da transição entre 2026 e 2033 para microempresas

O período de transição previsto entre 2026 e 2033 representa um dos maiores desafios práticos da Reforma Tributária para as microempresas. Durante esses anos, haverá a convivência simultânea entre o sistema atual e o novo modelo do IVA Dual, com a entrada gradual do IBS e da CBS e a extinção progressiva de PIS, Cofins, ICMS e ISS. 

Essa sobreposição de regimes aumenta significativamente a complexidade operacional, exige ajustes constantes em sistemas, cadastros e rotinas fiscais, e amplia o risco de erros na apuração, no crédito e na emissão de documentos fiscais. 

Para microempresas, que normalmente dispõem de estruturas enxutas e menor capacidade tecnológica, a transição tende a ser mais onerosa, exigindo planejamento, capacitação e investimentos para evitar perdas financeiras, autuações e perda de competitividade ao longo do processo.

Leia também: Reforma tributária 2026: cronograma tributário e o que você precisa saber ainda este ano

Convivência de sistemas e risco operacional

Durante a transição:

  • sistemas antigos e novos coexistem;
  • erros de parametrização são comuns;
  • a complexidade operacional aumenta.

Erros de crédito, XML e perda financeira

Falhas em:

  • cadastro de produtos;
  • NCM;
  • classificação tributária;
  • escrituração do IBS/CBS

podem gerar perda direta de crédito ou retenções indevidas.

Por que improviso fiscal vira prejuízo nessa fase

O novo sistema exige:

  • processos;
  • tecnologia;
  • governança tributária.

Improvisar significa perder dinheiro, não apenas correr risco fiscal.

Não deixe de conferir: Como diferenciar e calcular ICMS e IBS durante a transição da Reforma Tributária 

O Split Payment protege ou prejudica a liquidez da empresa?

O Split Payment é um dos mecanismos mais sensíveis da Reforma Tributária do consumo e gera dúvidas legítimas sobre seus efeitos na liquidez das microempresas

Em termos conceituais, o modelo busca reforçar a neutralidade fiscal e reduzir inadimplência e sonegação, ao permitir que o IBS e a CBS sejam segregados e destinados ao Fisco no momento do pagamento da operação (como em transações via cartão, PIX ou boleto). 

Do ponto de vista sistêmico, isso tende a aumentar a eficiência arrecadatória; porém, do ponto de vista empresarial, especialmente para microempresas, o impacto pode ser ambíguo. 

Ao eliminar o intervalo entre a venda e o recolhimento do tributo (o chamado float tributário), o Split Payment reduz a disponibilidade imediata de caixa, exigindo maior capital de giro e planejamento financeiro

Assim, embora o mecanismo contribua para um sistema mais neutro e transparente, ele pode pressionar a liquidez das microempresas que não estiverem tecnologicamente preparadas ou financeiramente estruturadas para operar em um ambiente de arrecadação quase instantânea.

Impacto direto no fluxo de caixa das microempresas

Com o fim do prazo entre venda e recolhimento:

  • o chamado float tributário desaparece;
  • o capital de giro fica mais pressionado;
  • a gestão financeira se torna crítica.

Split Payment sem controle tecnológico aumenta o risco

Sem sistemas integrados:

  • retenções indevidas podem ocorrer;
  • recuperar valores será burocrático;
  • o erro deixa de ser só fiscal e vira financeiro.

Mais detalhes sobre: Como microempresas podem organizar o financeiro antes da Reforma Tributária?  

Checklist: como preparar sua empresa para 2026

  1. Revisar cadastro de produtos (NCM, classificação);
  2. Avaliar perfil B2B x B2C;
  3. Simular Simples x Regime Híbrido;
  4. Investir em ERP preparado para IBS/CBS;
  5. Planejar capital de giro para o Split Payment;
  6. Capacitar equipe fiscal e contábil.

Conclusão: a sobrevivência no novo sistema depende de tecnologia

A neutralidade fiscal não garante conforto automático às microempresas. Ela cria um sistema mais transparente, mas também mais exigente. Quem não entender:

  • a lógica do crédito;
  • o impacto no B2B;
  • os efeitos do Split Payment;

perderá competitividade, mesmo sem aumento formal de impostos.

A Reforma não é apenas jurídica. Ela é tecnológica, operacional e estratégica. No novo sistema, amadorismo fiscal vira prejuízo real.

Perguntas frequentes sobre a neutralidade fiscal e microempresas

1. O que acontece se a neutralidade fiscal falhar na prática da minha empresa?

A empresa pode perder competitividade, margem ou espaço no B2B, mesmo sem aumento legal de alíquota.

2. Como o Split Payment ajuda a manter o sistema neutro para as PMEs?

Ele reduz inadimplência e sonegação, mas exige maior controle financeiro.

3. Empresas do Simples Nacional perdem competitividade com o novo sistema de créditos?

No B2B, sim, se não avaliarem a opção híbrida.

4. O que é o crédito financeiro amplo prometido pela Lei Complementar nº 214/2025?

É o direito de se creditar de todo IBS e CBS pagos nas etapas anteriores.

5. Qual a importância do cadastro de produtos (NCM) para garantir a neutralidade em 2026?

Erros de cadastro podem gerar retenções indevidas e perda de crédito, afetando diretamente o caixa.

Patricia Bis
Patricia Bis é advogada e pós-graduada em Direito Tributário, com anos de experiência na advocacia tributária consultiva e contenciosa. Apaixonada por traduzir temas complexos em informações claras e úteis, trazendo análises aprofundadas e atualizadas sobre o universo tributário para empreendedores e profissionais do setor.
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