Simulação: como a Reforma Tributária impacta uma empresa do varejo

Atualizado em | 9 min de leitura

Veja, em uma simulação real de venda, como o IBS, a CBS e o Split Payment mudam o preço, o caixa e a margem de uma loja de varejo.

9 min

Imagine uma loja de eletrodomésticos que vende um televisor por R$ 2.000,00.

Hoje, esse preço já inclui ICMS, PIS e Cofins embutidos, invisíveis ao consumidor.

Com a Reforma Tributária, o mesmo produto precificado pelo mesmo valor vai ter um preço-base menor, com o IBS e a CBS destacados separadamente, e o dinheiro do imposto sairá da conta do estabelecimento no exato momento em que o cliente pagar.

Sem float, sem prazo para recolher a guia, sem o capital de giro temporário que muitos varejistas usam há décadas.

E isso não é uma mudança para daqui a muitos anos.

A transição já começou em 2026, e quem não entendeu o que mudou corre o risco de chegar despreparado a um ambiente onde as finanças do varejo funcionam de forma completamente diferente.

Como o novo modelo do IVA Dual muda a rotina do comércio?

O IVA Dual substitui progressivamente o ICMS, o PIS e a Cofins pelo IBS e pela CBS.

Mas a principal mudança estrutural não está apenas no nome dos tributos, e sim em como eles são apurados, quando são recolhidos e como aparecem para o consumidor.

Como o fim do imposto embutido altera a exibição dos preços nas gôndolas?

No modelo atual, o preço do produto inclui o imposto por dentro: o consumidor paga R$ 2.000,00 e não sabe que R$ 300,00 ali são tributos.

Com o IVA Dual, os tributos precisam ser visíveis no documento fiscal, destacados separadamente do preço base do produto.

Isso não obriga o varejista a alterar o preço exibido na prateleira, que pode continuar sendo o preço total.

Mas a nota fiscal precisa discriminar quanto é produto e quanto é tributo.

Para o consumidor, isso aumenta a transparência.

Para o varejista, isso exige que o sistema de ponto de venda saiba separar esses componentes automaticamente na emissão do cupom fiscal.

Qual será o impacto real da transição gradual das alíquotas até 2033?

A transição não acontece de uma vez.

O cronograma previsto dilui a substituição dos tributos antigos pelos novos ao longo de vários anos: as alíquotas do IBS e da CBS sobem gradualmente enquanto as de ICMS, PIS e Cofins caem proporcionalmente.

Até 2033, os dois sistemas coexistem.

Para o varejista, esse período de convivência é operacionalmente complexo.

O sistema de gestão precisa calcular corretamente os dois regimes em paralelo, distinguindo quais produtos já são tributados pelo novo modelo e quais ainda seguem as regras antigas.

Quem não tiver um ERP preparado para isso vai gastar tempo e dinheiro tentando conciliar manualmente o que deveria ser automático.

De que forma o Split Payment mexe com o fluxo de caixa do varejista?

O Split Payment é a mudança mais impactante para o caixa do varejo.

No momento em que o cliente paga, seja no cartão, no PIX ou no boleto, a instituição financeira que processa a transação já separa automaticamente a parcela correspondente ao IBS e à CBS e a envia diretamente ao fisco.

O varejista recebe apenas o valor líquido.

Como a divisão automática elimina o capital de giro gratuito do imposto?

Hoje, quando uma loja vende R$ 100.000,00 em um mês, ela recebe R$ 100.000,00 e só paga o ICMS no prazo de vencimento, que pode ser no mês seguinte.

Nesse intervalo, o valor do imposto fica disponível no caixa da empresa, funcionando como capital de giro gratuito temporário.

Com o Split Payment, isso acaba.

A loja que vende R$ 100.000,00 com alíquota efetiva de 25% vai receber apenas R$ 75.000,00 na conta.

Os outros R$ 25.000,00 já foram para o fisco no momento da transação.

O planejamento financeiro precisa ser refeito com base nesse novo valor líquido, especialmente para empresas que dependem do fluxo mensal para pagar fornecedores, funcionários e despesas fixas.

Como evitar erros na integração entre o ponto de venda e o banco?

O Split Payment funciona automaticamente quando há integração correta entre o emissor de nota fiscal, o sistema de gestão e a instituição financeira.

Se a nota fiscal for emitida com alíquota incorreta, a retenção automática calculada pelo banco vai divergir do que o varejista esperava receber.

A integração precisa garantir que o valor do IBS e da CBS destacado na nota fiscal seja exatamente o mesmo que a instituição financeira vai reter.

Qualquer divergência entre os dois gera inconsistência que pode resultar em retenção incorreta e necessidade de regularização junto ao Comitê Gestor do IBS.

Quais os riscos financeiros de ter o valor retido incorretamente na transação?

Quando a retenção do Split Payment é feita com valor incorreto, os impactos são imediatos e concretos:

  • Retenção a maior: o varejista recebe menos do que deveria e precisa solicitar restituição ao Comitê Gestor, processo que pode levar semanas e comprometer o caixa no curto prazo.
  • Retenção a menor: o tributo não foi totalmente recolhido, e a empresa passa a ter um passivo fiscal que precisa ser regularizado, com risco de multa e juros.
  • Divergência entre nota e retenção: cria inconsistência nos registros do Comitê Gestor e pode sinalizar a empresa para verificação ou fiscalização.
  • Impacto no crédito do tomador: se o comprador é uma empresa que quer aproveitar o crédito, o valor errado na nota compromete o crédito que ele pode utilizar.

O que levar em consideração na hora de precificar com base no IBS, CBS e IS?

A precificação no IVA Dual exige uma revisão completa da formação de preços.

O cálculo que o varejista fazia antes, adicionando margem ao custo de aquisição com o ICMS embutido, precisa ser refeito considerando que o tributo agora é calculado por dentro do preço final.

Como calcular a margem de lucro aplicando a alíquota cobrada por dentro?

No IVA Dual, o tributo é calculado por dentro: a alíquota incide sobre o preço final que inclui o próprio tributo.

Isso significa que, se a alíquota combinada de IBS e CBS for 25%, o valor do tributo corresponde a 25% do preço total cobrado do consumidor, e não 25% sobre o preço líquido do produto.

Para o varejista, isso exige uma nova lógica de formação de preços.

O preço de venda precisa cobrir o custo do produto, as despesas operacionais, a margem desejada e o tributo, sendo que o tributo é calculado sobre o preço final resultante.

Calcular em cima do preço líquido como se fosse imposto por fora resulta em margem menor do que o pretendido.

Como o Imposto Seletivo afetará o preço final de produtos específicos?

O Imposto Seletivo incide sobre produtos e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente: bebidas alcoólicas, tabaco, veículos de combustão, produtos com alto carbono e outros.

No varejo, o IS aumenta a carga tributária sobre esses itens de forma adicional ao IBS e à CBS.

Para o varejista que comercializa produtos sujeitos ao IS, isso significa uma pressão de margem específica nessas categorias.

O IS não gera crédito para compensar na cadeia, ao contrário do IBS e da CBS, então seu impacto é integral no preço final.

Uma livraria de artigos gerais não sente esse impacto, mas um supermercado que vende bebidas alcoólicas precisa recalcular a precificação dessas categorias específicas.

Como o mecanismo de Cashback tributário pode atrair mais clientes para o seu negócio?

A Reforma Tributária introduz um mecanismo de cashback tributário destinado à população de baixa renda.

Parte do IBS e da CBS pagos em determinadas compras é devolvida automaticamente para o consumidor, creditada no CPF cadastrado.

O cashback beneficia famílias inscritas no CadÚnico, o cadastro federal de programas sociais.

O valor devolvido é proporcional ao imposto pago em categorias de consumo essenciais, como alimentos, gás de cozinha e outros itens definidos em regulamentação específica.

A devolução ocorre automaticamente, sem necessidade de solicitação pelo consumidor, e é creditada diretamente na conta ou benefício vinculado ao CPF.

Como o comércio varejista deve se preparar para aplicar esse desconto?

O varejista não precisa operacionalizar o cashback diretamente: o mecanismo funciona na camada tributária, entre o fisco e o consumidor, sem que a loja precise fazer nenhum cálculo adicional.

O que a loja precisa garantir é que o CPF do consumidor seja informado na nota fiscal de forma correta, pois é esse dado que viabiliza o vínculo entre a transação e a devolução tributária.

Do ponto de vista comercial, o cashback pode ser um diferencial de comunicação para varejistas que atendem esse público.

Saber que parte do tributo pago em compras essenciais volta para o bolso do consumidor é uma informação que pode influenciar positivamente a percepção de valor da loja.

Como o varejo pode se destacar no mercado após essa transformação digital?

A Reforma Tributária não é apenas uma mudança de cálculo: é uma digitalização compulsória da cadeia fiscal do comércio.

O varejista que chegar bem preparado vai ter vantagens operacionais reais sobre quem ficou esperando a última hora.

Ter um sistema de gestão integrado ao ponto de venda, ao estoque e à emissão de documentos fiscais significa que cada venda é registrada, tributada e documentada automaticamente, com a nota certa, o código NCM correto, a alíquota correspondente e a integração com o Split Payment desde o primeiro dia.

Isso reduz erros, elimina retrabalho e blinda o negócio contra autuações por classificação incorreta de produtos.

Além disso, varejistas que entendem a lógica do crédito no IVA Dual podem usar isso estrategicamente.

Quando o cliente é uma empresa, o crédito que ele pode apropriar sobre a compra depende da nota corretamente emitida.

Um fornecedor que emite notas precisas, com os tributos corretamente destacados, oferece ao comprador corporativo um diferencial financeiro mensurável.

Dúvidas comuns sobre as novas regras fiscais

1. O pequeno varejo no Simples Nacional vai perder competitividade comercial?

Em operações com consumidores finais pessoas físicas, a diferença de crédito entre fornecedores do Simples Nacional e do regime normal é irrelevante para o comprador, pois ele não aproveita crédito tributário.

O impacto é maior em vendas B2B, onde o comprador corporativo pode preferir fornecedores que transferem crédito maior.

Para o varejista que vende majoritariamente para consumidor final, a permanência no Simples tende a ser vantajosa pela simplicidade e pela carga menor, especialmente em faixas de faturamento menores.

2. Como funcionará a devolução de impostos nas contas de luz e água?

O cashback tributário é previsto para categorias de consumo essenciais, e as contas de energia elétrica e saneamento básico estão entre os serviços que podem ser contemplados.

O funcionamento segue a mesma lógica do cashback no varejo: o tributo pago pelo consumidor de baixa renda cadastrado no CadÚnico é parcialmente devolvido automaticamente.

Para o varejista, o que importa é que esse mecanismo não cria obrigação operacional adicional para o comércio, pois é processado diretamente entre a concessionária e o sistema fiscal federal.

3. O imposto sobre vendas online será retido de maneira instantânea?

O Split Payment se aplica a qualquer transação eletrônica, incluindo vendas por e-commerce, marketplace e aplicativos.

Quando o cliente paga online via PIX, cartão de crédito ou boleto, a instituição financeira que processa o pagamento retém automaticamente a parcela do IBS e da CBS e repassa ao fisco antes de liberar o valor líquido para o vendedor.

O varejista digital precisa adaptar seu sistema de gestão financeira para projetar o fluxo de caixa com base no valor líquido recebido, não no valor bruto cobrado do cliente.

4. Minha empresa precisará alterar o cadastro de mercadorias em 2026?

Provavelmente sim, pelo menos para parte dos produtos.

O IVA Dual utiliza uma tabela de classificação de produtos que determina a alíquota de IBS e CBS aplicável a cada item.

Quando a classificação difere do NCM atual ou quando o produto passa a ser tributado por uma alíquota diferente da anterior, o cadastro no sistema de gestão precisa ser atualizado.

Esse processo deve ser feito com o contador e dentro do prazo de transição, pois emitir notas com classificação errada no novo regime gera retenção incorreta pelo Split Payment e pode resultar em passivo fiscal.

5. O que acontecerá com o estoque antigo comprado antes da mudança?

O estoque adquirido sob o sistema tributário antigo, com ICMS e PIS/Cofins já pagos na cadeia, será vendido sob as novas regras do IVA Dual quando a transição entrar em vigor.

A legislação prevê mecanismos de transição para evitar que o mesmo produto seja tributado duas vezes, uma vez ao ser comprado sob o sistema antigo e outra ao ser vendido sob o novo.

Os detalhes desse tratamento de transição ainda dependem de regulamentação específica, e o contador precisa acompanhar as publicações do Comitê Gestor do IBS para orientar o varejista sobre o procedimento correto para cada categoria de produto em estoque.

Esther Lago

Esther Lago

Esther Lago é advogada com atuação em Direito Tributário e Empresarial (OAB/MG 233.253), voltada à assessoria jurídica de microempresas, pequenas empresas e empreendedores digitais, com foco em segurança jurídica, eficiência fiscal e estruturação inteligente dos negócios.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também

Confira outros artigos que vão te ajudar a aumentar as vendas e melhorar a gestão do seu negócio.

Venda mais com o GestãoClick

Explore todas as vantagens por 10 dias sem compromisso – Experimente agora!

  • No mínimo 8 caracteres
  • Letras maiúsculas e minúsculas
  • Pelo menos um número
  • Pelo menos um caractere especial