Governança fiscal na era digital: o ERP como ferramenta de conformidade legal

Atualizado em | 8 min de leitura

Entenda como cenários como a Reforma Tributária e a digitalização fiscal fazem com que um ERP seja uma ferramenta de compliance.

8 min

A administração tributária brasileira passou por uma revolução digital sem precedentes nos últimos anos.

Esse novo cenário exige que as empresas abandonem a gestão reativa e adotem a governança fiscal como prioridade estratégica. Em um ambiente de fiscalização em tempo real e cruzamento automático de dados, a conformidade é vital.

A má gestão ou a ausência de controles digitais robustos pode levar a prejuízos e riscos jurídicos. Neste artigo, exploramos o conceito de governança fiscal, sua importância e como sistemas ERP são essenciais para garantir a conformidade legal.

O que é governança fiscal?

A Governança Fiscal pode ser definida como o conjunto de diretrizes, processos e estruturas organizacionais. Seu objetivo é garantir que a empresa cumpra todas as suas obrigações tributárias e fiscais.

Isso deve ser feito de maneira ética, transparente e em estrita conformidade com a legislação vigente. A governança fiscal é a aplicação dos princípios gerais de governança corporativa à área tributária.

Conjunto de práticas de controle, transparência e conformidade

Na prática, a governança fiscal envolve três pilares interligados:

  1. Controle: Estabelecimento de processos internos rigorosos, com segregação de funções e uso de tecnologia para validação de dados.
  2. Transparência: Clareza na comunicação interna e externa sobre a política tributária adotada pela empresa.
  3. Conformidade (Compliance): Garantia de que todas as obrigações principais (pagamento de impostos) e acessórias (declarações) sejam cumpridas corretamente.

O foco é minimizar a exposição a riscos e evitar interpretações ambíguas da legislação.

Qual a importância da governança fiscal?

Em um ambiente de alta complexidade regulatória, a governança fiscal deixou de ser um diferencial competitivo. Hoje, ela é um requisito básico para a sustentabilidade e a continuidade do negócio no Brasil.

Sua importância se manifesta diretamente na redução de perdas financeiras e na proteção da imagem corporativa.

Evitar riscos jurídicos

A principal função da governança fiscal é a prevenção de riscos jurídicos e passivos tributários.

Ao estruturar processos, a empresa reduz a chance de erros humanos no cálculo ou na declaração de impostos. Isso mitiga a possibilidade de autuações e o custo elevado de longos litígios administrativos ou judiciais.

Uma boa governança garante que a empresa utilize corretamente benefícios fiscais e aproveite créditos lícitos.

Se precaver de autuações fiscais e multas

A governança fiscal atua como uma barreira preventiva contra as autuações. Ela assegura que os dados informados à Receita Federal e aos Fiscos estaduais/municipais sejam consistentes.

A consistência entre o faturamento, a contabilidade, o estoque e as declarações é auditada constantemente pelo Fisco. A falta de governança aumenta a exposição à malha fina eletrônica.

A transformação digital da administração tributária

A necessidade de governança fiscal foi acelerada pela transformação digital da administração tributária brasileira.

A Receita Federal e os órgãos estaduais investiram massivamente em tecnologia e interoperabilidade de sistemas. Isso criou um ambiente de fiscalização que é simultaneamente mais rápido e mais abrangente.

SPED, eSocial e DCTFWeb: fiscalização em tempo real

Os pilares da digitalização permitem a fiscalização em tempo real das operações empresariais. 

O SPED (Sistema Público de Escrituração Digital) cruza informações fiscais e contábeis de fornecedores e clientes.

O eSocial e a DCTFWeb centralizaram as obrigações trabalhistas e previdenciárias. Esses sistemas usam a tecnologia para identificar discrepâncias automaticamente e emitir alertas de inconsistência.

A velocidade de comunicação entre o fato gerador e a detecção do erro é quase instantânea.

Leia no ClickNotas: “Nota fiscal e SPED: qual a relação entre emissão e escrituração digital”. 

Ampliação da responsabilização de empresas e gestores

A digitalização trouxe consigo uma ampliação da responsabilidade pela conformidade.

A legislação tributária responsabiliza não apenas a empresa (pessoa jurídica) por infrações fiscais. Ela também alcança gestores, sócios administradores e, em alguns casos, até o contador.

A governança fiscal é, portanto, uma proteção direta para a pessoa física dos administradores.

A ausência de controles internos ou a comprovação de dolo pode configurar crimes contra a ordem tributária.

Como um ERP apoia a governança fiscal?

O uso de um sistema de gestão integrada (ERP) é o principal habilitador da governança fiscal na era digital. 

O ERP fornece a estrutura tecnológica necessária para a automação dos controles e a garantia da integridade dos dados.

Ele transforma a conformidade de um esforço manual e propenso a erros em um processo sistêmico e parametrizado.

Rastreabilidade das informações fiscais

Um ERP de qualidade garante a rastreabilidade completa e inquestionável das informações fiscais. Cada lançamento, alteração de cadastro ou emissão de documento fiscal (XML) é registrado e auditado pelo sistema.

O sistema vincula automaticamente:

  • Os XMLs das Notas Fiscais à movimentação do estoque e ao módulo financeiro.
  • Os dados do RH para geração correta da folha de pagamento no eSocial.
  • Os valores contábeis para a geração da Escrituração Contábil Digital (ECD).

Essa rastreabilidade é crucial para responder a questionamentos do Fisco com agilidade e precisão.

Saiba mais sobre XML em: “Qual a diferença entre XML e DANFE? [Guia Completo]”. 

Automatização de cálculos e cruzamentos obrigatórios

A complexidade do cálculo de tributos, especialmente ICMS, IPI, PIS e COFINS, é mitigada pelo ERP. O sistema automatiza os cálculos, aplicando alíquotas e regimes de substituição tributária conforme a parametrização legal.

O ERP também realiza cruzamentos internos de dados de forma contínua. Ele confronta, por exemplo, o que foi faturado (NF-e) com o que foi lançado no Livro Fiscal (SPED).

Isso impede que a empresa envie informações inconsistentes às plataformas governamentais.

Consequências jurídicas de má governança fiscal

A negligência ou a má gestão dos controles fiscais pode resultar em consequências jurídicas severas e de longo prazo. Essas consequências afetam a saúde financeira e a reputação da empresa.

Autos de infração e multas progressivas

A ausência de governança fiscal leva diretamente à emissão eletrônica de autos de infração pelo Fisco. 

Os erros, identificados pelos cruzamentos de SPED e eSocial, geram multas progressivas e agravadas.

Em muitos casos, o valor do passivo é acrescido da Taxa Selic, que corrige o débito desde o fato gerador. Isso transforma uma multa simples em um montante financeiramente exponencial.

As multas são frequentemente calculadas sobre o valor total da operação ou sobre o imposto devido. Esta situação gera um passivo tributário que compromete seriamente o fluxo de caixa da empresa.

A atuação de defesa contra um auto é onerosa e pode levar anos para ser resolvida. Isso gera custos de litigância administrativa e insegurança jurídica duradoura.

Responsabilidade solidária e riscos penais

Em casos de fraude, dolo ou comprovada má-fé, a falta de governança pode escalar rapidamente para a esfera penal. 

O risco de responsabilização é regido pelo Artigo 135 do Código Tributário Nacional (CTN).

A responsabilidade solidária pode ser aplicada a sócios e administradores. Isto ocorre em casos de excesso de poderes ou violação expressa da lei ou do estatuto social.

O Fisco frequentemente a alega em situações de dissolução irregular da empresa ou autuações por sonegação. Isso significa que o patrimônio pessoal dos gestores pode ser utilizado para quitar a dívida tributária da empresa.

Esta é a maior ameaça à segurança patrimonial e à credibilidade do empresário. A má-governança fiscal expõe os líderes a riscos penais tributários. Tais riscos incluem o crime de omissão de receita e a falsificação de documentos.

A Lei nº 8.137/90 prevê penas de reclusão para tais condutas, reforçando a urgência da conformidade.

Conclusão: Governança Fiscal Depende de Controles Digitais Robustos e Precisa Ser Feita Corretamente

A governança fiscal é a resposta estratégica e necessária das empresas à rápida digitalização da administração tributária brasileira. 

Não se trata apenas de cumprir a obrigação primária de pagar impostos, mas de fazê-lo com controles, transparência e segurança jurídica inabaláveis.

A velocidade com que a fiscalização digital opera e a ampliação da responsabilidade legal tornam a governança indispensável para qualquer negócio sério. A ausência de processos estruturados ou a persistência na dependência de métodos manuais é, inegavelmente, um convite aberto à autuação.

O risco de inconsistências cresce exponencialmente, gerando passivos que são corrigidos e cobrados em tempo recorde pelo Fisco. Para alcançar a conformidade exigida neste novo paradigma, o uso de controles digitais robustos e automatizados é mandatório.

Isso é fundamental para lidar com o volume massivo de dados e as complexas regras de cruzamento impostas pelos sistemas como SPED e eSocial.

Sistemas ERP, capazes de automatizar a rastreabilidade, os cálculos e os cruzamentos de dados, são a espinha dorsal dessa governança moderna. Eles oferecem a capacidade de auditar a si mesmo, corrigindo desvios antes que se transformem em autos de infração.

O ERP atua como uma ferramenta preventiva, garantindo a integridade do XML e a exatidão das informações declaradas. 

A tecnologia transforma o cumprimento de uma obrigação complexa em um processo contínuo e integrado. Isso permite que os profissionais fiscais se dediquem à análise estratégica, em vez de apenas à digitação de dados. 

Investir em tecnologia e em governança fiscal é, sobretudo, um ato de proteção ao negócio e aos seus gestores. É a forma mais eficiente de proteger o patrimônio pessoal dos administradores contra a ameaça da responsabilidade solidária.

Além da proteção contra multas, a governança eficiente gera vantagem competitiva no mercado. Empresas com conformidade fiscal robusta têm maior facilidade em obter crédito e demonstram solidez em processos de due diligence.

A transição para a Reforma Tributária reforçará ainda mais essa exigência. As novas regras de não cumulatividade plena exigirão um controle ainda mais minucioso dos créditos.

Qualquer falha na documentação ou no controle sistêmico pode resultar na perda desses valiosos créditos fiscais. Portanto, a governança deve ser vista como uma estratégia de longo prazo, e não apenas um custo.

Ela garante que a empresa possa operar com previsibilidade e segurança, focando em seu crescimento.

Sistemas ERP de gestão, portanto, deixaram de ser luxo para se tornarem um instrumento obrigatório de sobrevivência empresarial. É essencial que as empresas invistam em sistemas que possuam compliance fiscal atualizado.

Elas devem assegurar que a gestão seja feita corretamente, mantendo-se sempre à frente das exigências do Fisco digital.

Esther Lago
Esther Lago é advogada. Escreve materiais claros e acessíveis sobre Direito Tributário, contribuindo para a compreensão segura e objetiva das principais mudanças, obrigações e impactos na legislação fiscal.
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